Uso do principal remédio para esquizofrenia resistente avança no mundo, mas permanece muito abaixo do necessário
Estudo com dados de 75 países mostra aumento global do uso da clozapina entre 2014 e 2024, mas revela desigualdades profundas no acesso ao tratamento considerado padrão-ouro para casos graves da doença

O uso da clozapina — medicamento mais eficaz para o tratamento da esquizofrenia resistente — cresceu no mundo na última década, mas segue distante do patamar considerado adequado para atender pacientes que dele necessitam. É o que revela um amplo estudo epidemiológico internacional publicado na revista The Lancet Regional Health – Europe, com dados de 75 países, que analisou tendências de prescrição entre 2014 e 2024.
Segundo os autores, a utilização média global da clozapina alcançou em 2024 o equivalente a 0,46 doses diárias definidas por mil habitantes por dia (DDD/1.000/dia), um aumento de cerca de 39% em relação a 2014. Ainda assim, o índice permanece muito abaixo do parâmetro estimado como necessário: aproximadamente 2 DDD/1.000/dia, proporção compatível com a prevalência esperada de esquizofrenia resistente ao tratamento convencional.
“A clozapina é o único medicamento aprovado especificamente para esquizofrenia resistente e, mesmo assim, continua subutilizada em praticamente todo o mundo”, afirma a farmacêutica Ita Fitzgerald, da St Patrick’s Mental Health Services, na Irlanda, autora principal do estudo. “Nossos resultados mostram avanços, mas também uma lacuna persistente entre a evidência científica e a prática clínica”, diz.
Um remédio antigo, um dilema persistente
Introduzida nos anos 1970, a clozapina transformou o tratamento de pacientes que não respondem a outros antipsicóticos — um grupo que representa cerca de 40% das pessoas com esquizofrenia. Estudos mostram que o fármaco reduz sintomas, recaídas e mortalidade, além de melhorar a qualidade de vida. Ainda assim, seu uso sempre foi cercado de cautela, sobretudo devido ao risco raro, porém grave, de alterações hematológicas que exigem monitoramento regular.
Nas décadas seguintes, protocolos rígidos de acompanhamento e o receio de efeitos adversos contribuíram para uma cultura de prescrição conservadora. O novo estudo indica, porém, que esses fatores não explicam sozinhos as diferenças entre países.
Países líderes e extremos de desigualdade
Em 2024, a Nova Zelândia (2,99 DDD/1.000/dia) e a Finlândia (2,61) apresentaram os maiores níveis de utilização do medicamento — únicos países a atingir ou superar o limiar considerado adequado pelos pesquisadores. Na outra ponta, Cingapura e Emirados Árabes Unidos registraram índices próximos de zero.
O contraste é marcante também dentro de grupos econômicos. Embora países de alta renda concentrem os maiores níveis absolutos de uso, os maiores crescimentos relativos ocorreram em nações de renda média. No Brasil, por exemplo, a utilização aumentou mais de 10% ao ano no período analisado, mas partindo de uma base muito baixa — cerca de 0,06 DDD/1.000/dia em 2024.
“Os dados mostram que a subutilização não é um problema restrito a países pobres”, afirma o psiquiatra Christoph Correll, coautor do trabalho e professor da Charité, em Berlim. “Mesmo em sistemas de saúde bem estruturados, a clozapina frequentemente é iniciada tarde demais ou simplesmente não é considerada”.
Mais médicos, mais acesso
Ao investigar os fatores associados às diferenças entre países, o estudo encontrou uma correlação clara entre maior número de psiquiatras por habitante e maior uso da clozapina. Já a rigidez das regras de monitoramento hematológico — frequentemente apontada como principal barreira — não se mostrou um fator decisivo quando analisada em conjunto com a disponibilidade de profissionais.

“O resultado sugere que ampliar o acesso ao tratamento passa menos por flexibilizar regras e mais por fortalecer os serviços de saúde mental”, diz Fitzgerald. Segundo ela, equipes especializadas, clínicas dedicadas ao manejo da clozapina e apoio interdisciplinar ajudam a reduzir o receio dos profissionais e a melhorar a adesão dos pacientes.
A esquizofrenia resistente está associada a maior risco de internações prolongadas, desemprego, exclusão social e mortalidade precoce. Para os autores, ampliar o acesso à clozapina é uma questão de saúde pública e de equidade.
“Quando pacientes não recebem o tratamento mais eficaz disponível, o custo humano e social é enorme”, afirma David Shiers, psiquiatra britânico e colaborador do estudo. “Os países que conseguiram integrar a clozapina de forma sistemática mostram que isso é possível”.
O trabalho estabelece, segundo os pesquisadores, um marco comparativo global e fornece uma base para políticas públicas mais ambiciosas. O desafio agora é transformar dados em ação — e reduzir a distância entre aquilo que a ciência recomenda e o que chega, de fato, aos pacientes.
Detalhes da publicação
Ita Fitzgerald; Sarah O'Dwyer; Ciara Ní Dhubhlaing; Siobhan GeeLaura J. Sahm; Amanda Wheelere outros "Tendências globais na utilização de clozapina entre 2014 e 2024: um estudo epidemiológico longitudinal com dados de 75 países."
The Lancet Saúde Regional – EuropaVol. 63 101602
DOI: 10.1016/j.lanepe.2026.101602Link